quarta-feira, 31 de março de 2010

Relato da Isabela, nascimento do Tales



Relato do Parto do Tales


Preparação para o parto

O parto da Lara deixou marcas na minha alma, decidi que quando engravidasse novamente, faria tudo diferente, e foi o que fiz. O Flávio e eu conversamos e decidimos que era um bom momento, era começo de 2009, escrevi para o grupo gestarbeminterior-sp, pedindo indicação de um Obstetra em Araraquara, que apoiasse o parto normal, natural um parto sem intervenções, a Cris me respondeu dizendo que era de Araraquara, pediu para eu contar o parto da Lara, contar um pouco sobre mim. Assim passamos a conversar por e-mail, ela sempre me orientava, fazia perguntas que fazia com que eu refletisse, conheci também a Rô, e foi ai que percebi que estava com o queijo e a goiabada na mão, por que meu Deus que dupla é essa!!!

Quando engravidei, a Rô veio pra Matão me conhecer pessoalmente, depois marcamos um bate papo, na casa da Cris, e tudo era tão legal, não me sentia mais sozinha e nem anormal, pode parecer exagero, mas quando falava para as pessoas de como queria meu parto elas achavam que eu era louca, que tudo era besteira, que estava procurando o jeito mais difícil, e que o mais importante era nascer com saúde não importava como. Sentia que estava em uma guerra e que iria lutar muito pra conseguir as coisas do jeito que queria, foi isso mesmo que aconteceu.

Fui à reunião do grupo Nascer Naturalmente, estava com 11 semanas de gravidez e simplesmente adorei, desde a primeira gravidez eu lia, pesquisava em sites, blogs, lia relatos, mas nada era tão concreto como essa reunião, conheci muitas pessoas, mas a que mais me marcou foi a Luiza, ela já estava pra ter o bebê, e planejou um parto domiciliar com a Enfermeira Obstetra Jamile, achei bem legal, mas no fundo eu duvidava que acontecesse, e depois de uma semana não é que ela pariu mesmo em casa, então vi que era possível. Eu nunca tinha pensando em um parto domiciliar, achava muito difícil, tinha que convencer meu marido e parecia muito longe de mim, eu só queria um parto o mais natural possível, chegava a imaginar que seria muito bom estar em uma tribo indígena. A Rô e a Cris me emprestavam livros e eu lia procurando aprender o máximo, a cada livro que lia pensava: “... na hora que eu estiver em trabalho de parto preciso me lembrar disso”. Em outra reunião do grupo, conversei com a Carol, ela iria ter o bebê fim de dezembro começo de janeiro e eu começo de fevereiro, também íamos ao mesmo obstetra, então falei pra ela (brincando) que iria fazer o que ela fizesse que ela fosse a minha cobaia rsrsrs. Quanto mais eu lia, mais eu percebia que era impossível ter um parto sem intervenções em um hospital, quando pensava no parto da minha filha Lara também chegava a essa conclusão, e acho que não foi só eu que chegou nessa conclusão porque a Carol também planejou o dela em casa, então vi que se eu quisesse mesmo ter o parto dos meus sonhos teria que convencer meu marido de um parto domiciliar.

Comecei a batalha, não foi fácil, eu falava, argumentava, citava exemplos, mostrava fotos e nada do homem ceder não queria nem saber, dizia que era muito perigoso e que o melhor lugar era no hospital, foi então que eu apelei, o que vou revelar nem minhas queridas doulas a Rô e Cris ficaram sabendo, mas eu preciso confessar, eu não vi outro jeito, eu ameacei, ameacei sim, ameacei nosso relacionamento, ameacei nosso casamento ele precisava entender o quanto era importante pra mim, pra mim era muito mais que ter meu filho com saúde física, eu queria que ele tivesse também a saúde emocional, psicológica queria que o Tales se sentisse vitorioso por nascer sozinho, só eu e ele, nós dois precisávamos disso, eu precisava sentir que meu botão de parir funcionava isso mesmo por que penso que sou como uma máquina, fui feita com umas das funções mais belas do mundo, gestar e parir e não abriria mão disso por nada no mundo.

Enfim, de tanto ameaçar, chantagear rsrsrrs. Ele concordou pelo menos de conversar com a Jamile, marcamos pra depois das festas de natal e ano e coincidências ou não, foi no dia que a Carol pariu. A Jamile, a Rô e a Cris saíram do parto da Carol pra se encontrar comigo e com o Flávio. Foi um encontro muito tranqüilo, eu adorei a Jamile e o Flávio aquele filho da p... , concordou com tudo que ela disse que o hospital também tem riscos, que o parto sem intervenções é melhor, etc., etc. até parecia que eu nunca tinha falado aquilo pra ele, quando eu falava, ele discordava ai a Jamile falou e ele concordou, vai entender os homens, acho que eles pensam que as esposas inventam as coisas eles precisam ouvir de médicos e enfermeiras obstetras pra se convencerem, tudo bem não importa como, o mais importante é que ele tinha mudado de opinião e voltei pra Matão com ele falando como deveríamos organizar a casa, eu ouvia e não conseguia nem responder estava radiante.

Depois desse encontro marcamos outro era muito bom, ela me perguntava se tinha alguma dúvida, angustia ou medo, dizia que o único medo que tinha era o medo de “mijar na arvrinha” por causa da dor, desculpa o termo feio, mas assim consigo ser mais intensa em passar meus sentimentos, o termo quer dizer tinha medo de desistir porque o parto da Lara eu desisti por causa da dor, claro que teve a pressão do médico, mas a dor contou muito, desisti e depois me arrependi de ter desistindo foi um sentimento muito frustrante, não queria sentir de novo, dessa vez eu precisava conseguir. Ela me tranqüilizava dizia que o primeiro parto eu estava sem ajuda e que dessa vez todas elas iriam me ajudar a superar a dor. Quando desabafava com minhas amigas doulas sobre o medo da dor, elas também me encorajavam e isso era tão importante, eu realmente confiava nelas, confiava de todo meu coração.

Em uma consulta com meu médico conversei com ele sobre o parto domiciliar e ele reagiu super bem, ele apoiou. Também fui conversar com o pediatra da Lara e ele também reagiu com muita tranqüilidade, disse que se eu havia me preparado e se o pré-natal estava ok então esta seria a melhor maneira do Tales vir ao mundo, disse ainda que se as mães tivessem mais comprometimentos com o bem estar de seus filhos, muitos bebês não sofreriam tanto pra nascer. Meu marido que estava junto ficou mais convencido que o parto domiciliar não era o perigo que ele imaginava.

Mergulhei de cabeça nesse sonho, devorava livros, assistia a DVDs procurando aprender tudo, em cada encontro com a Rô e a Cris parecia mais concreto meu sonho. Com 36 semanas elas foram a casa, me levaram a bola e planejamos onde a Jamile colocaria a banheira, no meu quarto tinha o projeto do banheiro com a banheira, mas estava sem acabar faltava à parte de acabamento, tínhamos feito só o encanamento e elétrica, estava tudo no contra-piso. Pois é deu à louca e com 37 semanas tinha pedreiro, marmoraria, encanador, todos lá em casa, em um verdadeiro mutirão. Dei 10 dias, esse foi o prazo que eu dei pra eles, e conversei com o Tales disse que se ele esperasse pra depois de 39 semanas ele iria nascer em um banheiro lindo e com uma banheira maravilhosa com hidromassagem, e ele claro que me ouviu os bebês sempre ouvem suas mamães dentro da barriga.

O Dia do Parto

Terça feira, 09 de fevereiro consulta com o meu obstetra, o Doutor falou “tudo normal, você pode entrar em trabalho de parto a qualquer momento”, na verdade eu acho que estava em trabalho de parto há alguns dias, pois senti o bebê descer e encaixar sentia contrações indolores, acredito que o parto é um processo de amadurecimento do bebê, então ele não acontece de uma hora pra outra, acredito que quando chega certo momento tudo fica com um ritmo muito intenso, mas não de uma hora para outra, enfim o Doutor perguntou se eu estava vendo a Jamile e se estava tudo certo para o parto domiciliar, eu disse que sim que tudo já estava organizado, então ele disse que iria viajar e que só voltaria depois do carnaval, eu não fiquei com medo, ao contrario fiquei feliz por ter acertado com a Jamile, porque já pensou se ele viaja e me deixa com um obstetra que gosta de cesárea.

Só faltavam alguns detalhes do banheiro, que o próprio Flávio estava cuidando, o quartinho do Tales estava ok, as coisas para o parto ok. Eu não estava ansiosa, estava bem sossegada, ficava imaginado, sonhando com o parto e com a carinha do Tales, passei um e-mail pra Jamile pra marcamos um encontro sugeri quinta feira 11 de fevereiro, mas a Jamile disse que pra ela seria melhor na sexta-feira, concordei e assim ficou combinado, mas esqueci de combinar com o Tales e ele resolveu mudar os planos da Jamile rsrsrrs.

Quarta feira à noite após o jantar o Flávio foi terminar os detalhes do banheiro, pendurou espelho, porta toalha, porta papel, etc. Eu e a Lara estávamos junto dele conversando, foi nesse momento que comecei a sentir as contrações com um pouquinho de dor, elas vinham de quinze em quinze minutos, estava bem tranqüila, brincava com ele, dizia “Flávio termina logo isso que seu filho está chegando” e acabávamos rindo da situação. Coloquei a Lara pra dormir e resolvi ligar pra Rô, era umas nove e meia ela não estava e retornou a ligação por volta das onze horas, expliquei pra ela o que estava sentindo, ela disse pra tomar um banho, comer alguma coisa e tentar dormir foi o que fiz, dormi até as duas da madrugada, depois eu acordava em cada contração e voltava a cochilar, foi assim até as cinco da manhã, eu levantei preparei o café da manhã, eu e o Flávio tomamos café, procurei não conversar muito sobre o dia, pois não queria ficar preocupada, alias procurei não pensar no parto, raciocinar, fazer planos, ou idealizar, nem se quer imaginei, simplesmente deixei rolar, deixei acontecer. Liguei pra minha mãe conversamos e combinamos tudo ela cuidaria da Lara e das refeições (almoço e Janta).

Liguei pra Rô, e elas chegaram por volta das nove, quando chegaram senti uma paz muito grande, senti que dessa vez não estaria sozinha. Fomos caminhar um pouco, conversamos, elas me ensinavam a respirar e a me concentrar em cada contração, sentia que o trabalho de parto progredia bem, em casa sentada na bola elas me ajudavam com massagem, eu sentia dor, mas era uma dor bem suportável, almoçamos, depois fiquei um pouco no chuveiro, que gostoso é incrível o poder da água. O Flávio levou a Lara no médico uma consulta de rotina, eu fiquei no meu ninho rsrsrrs sentada na bola apoiada em travesseiros na minha cama, lá eu mergulhei em um outro mundo, ouvia tudo o que acontecia a minha volta, o portão bater, os cachorros latirem, as pessoas conversarem, mas era como se tudo aquilo estivesse longe de mim, eu tinha a sensação de que eu não estava ali, era estranho a única coisa que parecia perto de mim era a dor, em cada contração eu me concentrava pra não segurar a dor ela tinha que vir e passar por dentro de mim sem eu segurar, dessa maneira eu sentia que podia resistir, mas algumas vezes eu deixava escapar e acabava desconcentrando aí sim a dor era insuportável. Mas graças a Deus que eu tinha a Rô, a Cris e o Flávio que tinha voltado da consulta, eles se revezavam na massagem e a Rô e a Cris não deixavam, eu perder o foco da respiração. As 16h00min as contrações mudaram além de dor eu também estava sentindo vontade de fazer força, nessa hora a Jamile chegou e pediu pra fazer um exame de toque, em todo o trabalho de parto esse foi o momento em que eu mais senti dor, pois na bola a dor era forte, mas dava pra agüentar, quando eu deitei na cama pra fazer o exame de toque senti uma dor insuportável, ainda bem que foram só umas duas contrações naquela posição horrível. Jamile disse que estava com sete cm de dilatação e me indicou a banheira. Minha mãe ligou pra minha irmã que chegou a casa rapidinho ela queria ver o sobrinho e afilhado nascer, ela estava nervosa, nunca vou esquecer a cara dela rsrsrrs apesar de toda dor que estava sentindo eu havia me preparado para aquele momento, mas ela não e vi que estava ansiosa, a Ro e a Cris ficaram com medo, então me perguntaram se estava tudo bem a presença dela, eu disse que sim, pois estava tão preparada que nada tiraria minhas convicções, ela ficou quietinha, só olhando e foi muito importante saber que ela estava ali.


O Nascimento

Na banheira eu sentia as contrações de forma diferente, eram fortes, porém relaxante, a água tira a irritação das contrações, os nervos relaxam. Foi lá que a bolsa rompeu, fiquei lá umas duas horas, bebi água, suco e até chupei sorvete, mas quando as contrações mudaram, comecei a ficar incomodada com a posição na banheira, sentia vontade de fazer força e sentada na banheira eu não conseguia, até tentamos mudar de posição, mas não ficava acomodada, não sei se era o tamanho da banheira, se era a água que relaxa demais ou se eram as duas coisas juntas rsrsrrs. Foi nessa hora que vi a Jamile trazer o banquinho de parto e vi uma movimentação no banheiro, senti um frio na barriga, pois sabia que à hora estava próxima, sentia alegria por saber que teria meu bebê nos braços, mas sentia também muito medo de tudo que estava por vir, na verdade sentia muito medo das sensações que estava sentindo. Quando sai da banheira e fui pro banquinho, as sensações ficaram mais fortes, nessa hora eu não consigo me lembrar de sentir dor, me lembro que sentia muito medo, sentia medo de morrer, repetia isso varias vezes, dizia: eu vou morrer, eu to com medo, o que ta acontecendo comigo? Agora parece engraçado, mas na hora a emoção é muito forte. Todos me tranqüilizavam dizendo que estava tudo bem, que era assim mesmo, o Flávio sentou em um banquinho atrás de mim ele estava feliz e me incentivava, não teria conseguido sem esse apoio. As minhas amigas doulas Rô e Cris foram fundamentais elas me conduziam na respiração, na força que devia fazer e até me seguravam porque meu Deus que força é essa, eu lembro que o Flávio me segurava, as doulas me seguravam e na hora da força eu arrastava todo mundo. Se pedissem pra explicar ou comparar as contrações nesse momento eu diria assim: são como ânsia de vomito, só que não são de vomito são de força, quando a ânsia vem impulsiona o corpo pra frente com uma força avassaladora, não sentia a força embaixo como imaginava, imaginava que os puxos eram como força de coco, mas não foi isso que senti, sentia uma ânsia em que o corpo todo faz força, as costas, as costelas, o ventre, e as pernas, estava com tanto medo de tudo isso que achava que estava morrendo, não imaginava que meu corpo tinha capacidade para tal ímpeto, sentia que estava me descontrolando, foi quando eu disse que não iria conseguir e todos disseram você já conseguiu, a Jamile disse pra eu fazer o que tinha vontade, que se tivesse vontade de chorar era para chorar, olhei para o rosto de todos e eles estavam tão calmos, estavam com um semblante de felicidade, foi nesse momento que senti que tinha conseguido, olhei para a Jamile ela começou a cantar para o Tales comecei a chorar e deixei meu corpo terminar o que tinha começado, senti o Tales coroando, queimava, pegava fogo a Jamile derramou um pouco de óleo e isso aliviou, colocaram um espelho pra eu ver, disseram pro Flávio vir na frente segurar ele, mas eu estava tão concentrada nos puxos que não deixava ninguém se mover, disseram pra eu por a mão pra sentir a cabeça dele, mas também não conseguia, acho que estava tão concentrada, que já estava sentindo a cabeça dele passando nas minhas entranhas, tudo era tão intenso, senti queimar e mais um puxo e o Tales escorregou para os braços da Jamile, lindo, grande e forte. A Jamile tirou uma circular de cordão do pescoço e me entregou. Primeiro perguntei se ele estava bem, depois relaxei e declarei todo meu amor a ele, repetia varias vezes, eu te amo, eu te amo, depois abraçada a ele comecei a dizer eu consegui, eu consegui, me sentia vitoriosa, campeã e minha taça de ouro era o Tales, todos se emocionaram o Flávio ficou tão emocionado, tão feliz, dessa vez ele não assistiu ele participou do parto. Minha irmã estava eufórica, minha mãe e a Lara que estavam na sala correram para conhecer o Tales.

Após o Parto

Fui pra cama lá o Tales mamou pela primeira vez, também fez coco pela primeira vez e tudo era motivo de graça e alegria. O Tales foi pesado e medido tudo com muito carinho não sofreu nenhum procedimento desnecessário, a Lara ficou junto com o irmãozinho, quis ajudar a colocar a primeira roupinha. A Jamile me examinou e eu não tive nenhuma laceração graças a ela que cuidou do períneo e a doulas que me ajudaram a respirar e a fazer a força da forma correta. Depois que a placenta saiu, tomei um banho e comi um prato de sopa preparada pela Rô, me sentia ótima, feliz, radiante. Recebi visitas de amigos e parentes, um clima de festa tomou conta da minha casa.

Consegui este parto humanizado porque fui forte e fui atrás do que queria, porém fui forte porque tive o apoio de várias pessoas, quero agradecer a todos que me ajudaram. Agradeço a minha mãe, a minha irmã, pois ficaram ao meu lado mesmo com todo medo que eu sei que elas estavam, agradeço o meu esposo Flávio que suportou minhas pressões, agradeço muito por ter compreendido a importância de tudo que eu queria. Agradeço a minha querida filha Lara de apenas três aninhos, que é mais sábia que muitos adultos que conheço, ela sempre ficou ao meu lado assistiu aos filmes e dizia “mãe põe um filme de mué grávida pra nós vê o nenezinho nasce”. Agradeço as minhas amigas doulas por todo apoio que me deram. Agradeço a Jamile por ser tão tranqüila serena além de claro uma excelente profissional. Agradeço todos os amigos que deram palavras de encorajamento, ao meu obstetra ao pediatra. E principalmente agradeço a Deus por todas essas pessoas estarem ao meu lado, obrigada e que Deus lhes pague.

2 comentários:

Liu disse...

lindo, emocionante... vc mereceu mto isa. foi forte, empoderou-se e conseguiu parir de uma forma maravilhosa. parabéns!!!

Priscilla disse...

q linda essa história,adorei esse blog..e to seguindo..queria saber se vcs sabem de doulas aqui no Rj..eu antes pelo fato da dor..optava pela cesarea mais vendo como é o humanizado..mudei completamente de opinião e me senti mais segura..! Um beijo!