domingo, 29 de setembro de 2013

Relato de Parto - Nascimento de Teodoro, por Talita Miranda.


Sem a menor sombra de dúvida, se fosse descrever a jornada até aqui, precisaria publicar um livro. Dos transtornos hormonais na adolescência, tratamentos insalubres, a perda de trompa e ovário, o fantasma da esterilidade. A vontade imensa de poder transmitir a alguém especial tudo aquilo de bom, elucidativo e encantador que aprendi com a dinâmica da existência. Os eventos que fizeram a moça de São Paulo, conhecer o rapaz de Rio Preto lá em Bauru e depois se mudarem juntos, os três (ela, ele e um novo ser em desenvolvimento, fruto desse romance) para Araraquara. As pessoas certas no meu caminho. Toda a transformação que só o dom de portar outra vida poderia proporcionar. Novas dúvidas, novos interesses, novas leituras, muitas descobertas, emoções únicas e sublimes. Empoderamento e beleza. Medo e prazer...
Vou tentar abreviar o relato pontuando apenas os acontecimentos que se seguiram aos pródromos de parto:
Dia 16 de Junho (domingo) ocorreu o primeiro sinal do início de uma longa semana: meu tampão começara a sair em forma de muco. Nessa altura, eu já tinha diariamente inúmeras contrações de treinamento. Três dias depois liberei logo pela manhã uma ‘bolachona’ viscosa com um pouco de sangue, tive dúvida se estava perdendo também líquido amniótico. As contrações começaram a incomodar no início da noite e duraram até amanhecer. Fui à última GO (passei por quatro) que acompanhou meu pré-natal, minha bolsa continuava com a membrana íntegra. Ela monitorou os batimentos do bebê durante as contrações e viu que meu colo estava esvaindo-se, porém ainda sem dedo de dilatação, apenas apagamento cervical. Eu estava bem, sem pressa, ele nasceria em seu próprio tempo.
Segui tendo contrações com momentos de longas pausas que foram se intensificando novamente (com intervalos variando de 8 a 11 minutos).  O Ruy (meu companheiro), receoso, quis conta-las pra não perder o time de ligar pras parteiras, no entanto fiquei assim a noite inteira daquela quinta-feira e nada evoluiu. Como não consegui dormir, passei a madrugada arrumando pequenezas pela casa: tirando sujeirinha dos cantos, das paredes, marcas de dedos dos armários... enfim, ‘ajeitando o ninho’. Estava calma, paquerando o formato da minha barriga, fixando na memória a sensação de senti-lo mexer em meu ventre.  
Sexta-feira, as contrações continuaram, sempre irregulares, mas com intensidades maiores e espaços reduzindo (variavam entre 4 e 7 minutos). Pedi pra minha amiga doula Cris vir me avaliar. Ela ficou horas aqui com a gente, tranquilizou o Ruy, trouxe lanchinho, ensinou massagens pra ele fazer em mim para aliviar as sensações dolorosas e nos orientou a curtir os últimos momentos do período latente a sós que logo, logo as coisas mudariam. Sugeriu deixar as parteiras de sobreaviso e foi embora.
Duas horas depois, experimentando posições de conforto, resiliente em meio às contrações, senti algo molhando. Fui ao banheiro conferir e era sangue vivo, deixou a água do vaso vermelha e também o papel higiênico. Em pânico, chamei o Ruy, ligamos pra uma das parteiras para confirmar se aquilo era normal. Segundo ela, pequenas quantidades podiam ser por consequência do colo do útero dilatando, dai daria tempo de a Cris voltar e averiguar enquanto elas se deslocavam até minha cidade. Só que na leiga dúvida sobre o que poderia ser considerado ‘muito sangue’, o Ruy achou melhor não arriscar e irmos pro Hospital. Tive medo.
Chegando lá, ainda do lado de fora da Maternidade, a Cris (que foi ao nosso encontro) também achou, por toda sua experiência, que era apenas sangue de algum vasinho que rompeu com o colo dilatando, disse que se entrássemos para eu ser avaliada, dependendo de como estivesse a dilatação, a equipe médica não me deixaria voltar pra casa. Como ela previu, entrei, fui avaliada, estava com SEIS centímetros de dilatação e o sangue era mesmo do colo. Novamente segura de si, pedi pra ir embora de volta pra casa, me acharam irresponsável e solicitaram minha internação, então menti dizendo que preferia ter meu filho em outro Hospital da cidade, e que meu companheiro me levaria por meios próprios. ‘Acreditaram’, e após um ‘leve’ sermão sobre IR DIRETO pro outro hospital, pois estava em FRANCO TRABALHO DE PARTO, fomos liberados.
Saí de lá com sorriso de orelha a orelha, cara de menina sapeca, afinal, ‘dei o maior migué’ e estava voltando pra casa, e o melhor: com belos 6 cm de dilatação!!! Até as contrações me pareceram mais prazerosas. As parteiras já estavam na estrada, chegaram pouco mais de 1 hora depois, logo após a fotógrafa.
Em casa, o Ruy foi enchendo a banheira de água quentinha, acendemos velas aromáticas, colocamos músicas relaxantes, e fui curtindo uma a uma as contrações com exercícios de respiração a espera do nosso filhotinho. Nesse clima gostoso de banheira, chuveiro, colchão, bola, banqueta, massagens com ólinhos, carinhos, chás, petiscos de frutas e doces, as horas foram caminhando madrugada adentro. Minhas contrações continuavam irregulares, eu relaxava e elas se espaçavam, então me incentivaram a partir para exercícios mais ativos na esperança de estimulá-las...
As horas continuavam passando, o dia amanheceu, e eu que há 3 noites não dormia, estava bastante cansada, com sono, e já pela manhã de sábado, fui tirar um cochilo. Mesmo com algumas contrações, consegui dormir mais de duas horas, até sonhei. Acordei com o almoço pronto.
Energias ‘renovadas’, minhas contrações engataram novamente e entrei no que agora classifico como ‘falso período expulsivo’. Foi muito emocionante (apesar de não ter sido efetivo), comecei a ter contrações que me faziam criar força de expulsão, e a emoção de conhecer meu bebê contagiou a todos... Só que não sentia ele descendo pelo meu canal vaginal, e realmente não estava. No exame de toque, apesar de eu estar perdendo bastante líquido, aparentemente apenas o córion havia rompido, estava com dilatação próximo aos 8 ~ 9 cm, mas a membrana amniótica cobria todo o colo, intacta, formando um bolsão de líquido entre este e a cabeça do bebê (que não havia se encaixado completamente). Essa constatação foi de perder o ânimo.
Fui dar uma caminhada pelo condomínio, estava o maior frio, voltei a fazer exercícios mais ativos, e já não conseguia encontrar conforto durante a dor das contrações (que permaneciam irregulares). O tempo continuava passando, quase dormi em pé entre uma e outra, meu corpo estava novamente exausto. Mais uma tarde de sol se punha... pediram pra eu não entrar mais na banheira, pois o relaxamento fazia as contrações ficarem com intervalos maiores, devia escolher entre relaxar ou parir. Queria ver meu filho nascer, conhecer seu rostinho, não estava sendo simples como imaginei. Talvez eu precisasse me centrar mais, me desligar do que acontecia ao meu redor e me entregar completamente.
Pela grande quantidade de líquido que havia perdido até então, chegamos à conclusão que minha bolsa havia rompido em algum ponto alto que não o colo, ganhando o aspecto de bexiga murcha, dificultando sua ruptura onde a bolsinha d’água impedia a cabeça do bebê se acomodar na bacia e então descer. As horas continuaram passando, e mesmo com os incentivos, exercícios, contrações fortes, comidas apimentadas, chá estimulante, nenhuma evolução...
Durante todo esse processo foram feitos monitoramentos cardíacos do feto. Sabia que enquanto eu e o bebê estivéssemos bem, poderíamos continuar em casa tentando estímulos naturais, mas na medida em que o tempo foi passando, fui ficando mais ansiosa, mais tensa, angustiada, até para urinar estava com dificuldade. Já não conseguia distinguir se havia ou não algo me bloqueando psicossomaticamente. Busquei, sem sucesso, motivos racionais que pudessem explicar esse quadro estagnado.
O meu ponto limite na tentativa do parto natural domiciliar foi a saída de líquido levemente esverdeado - o que indicava começo de eliminação de mecônio pelo bebê. Apesar da quantidade em si não significar perigo, duvidei que meu filho não começara  sofrer com aquele longo processo. Amniotomia em casa poderia ser arriscada.  Então numa conversa franca e comovente com o Ruy e depois com toda a equipe, decidimos apelar para o plano B, ou seja, remoção para o Hospital (o mesmo de onde ironicamente havia fugido da internação há pouco mais de 24 horas). Confesso que naquele momento, parte do meu choro era de frustação e vergonha por não ter sido capaz de atender as expectativas que criei em mim e nos demais. Bobagem minha. O apoio emocional do meu companheiro foi fundamental, me dizia, entre outras coisas lindas, para eu me alegrar, afinal, iriamos logo conhecer nosso filho tão querido e esperado. Nada importava mais que seu nascimento.
Nosso plano B tinha sido previamente traçado segundo critérios de distância (o mais perto), custo (o mais barato, já que toda a grana que levantamos foi para pagar as parteiras pro plano A), disponibilidade de leitos, ‘humanização’ no atendimento (o menos cesarista da cidade), e equipamentos emergenciais (UTI materna e neonatal) da maternidade. Foi nossa melhor opção naquele momento. Feita a mala de coisinhas minhas e do bebê, nos dirigimos pra lá.
Dei entrada na madrugada enluarada de domingo do dia 23, cerca de uma hora e meia depois já estava com meu filho nos braços. Apesar do meu receio com o atendimento hospitalar, a equipe de plantão foi bastante compreensiva quanto ao tempo que passei em trabalho de parto em domicílio, no geral não fizeram julgamento ético explícito sobre isso, ao contrário, disseram que na medida do possível respeitariam a continuidade do processo fisiológico e meu protagonismo. Qualquer indicação de intervenção era me perguntada, aceitei logo de cara que terminassem de romper a bolsa, o que fez o bebê finalmente encaixar e iniciar sua descida.
Não estava no conforto do meu lar, mas a sala de parto era bem jeitosa, tinha bola, barra, cavalinho, música relaxante, meia luz... Permitiram o acompanhamento da doula. Pude ficar com o Ruy e a Cris o tempo todo. Passei um tempo no chuveiro, onde já consegui tocar a cabecinha do meu bebê, nem acreditei! Assim que começaram a vir contrações mais fortes, passei pro cavalinho. O Ruy me fazia massagem nas costas e quadril, a doula no rosto, pescoço, me ajudava a controlar a respiração, distensionar os ombros, sempre com palavras doces de incentivo...
Minhas contrações ainda não estavam tão efetivas no puxo. A enfermeira vinha oferecer ocitocina por conta da distócia de progressão. Combinamos a Cris e eu então de fazer com uma manta torcida ‘cabo de guerra’ assim que viesse a próxima contração. De primeira o bebê já veio coroando... Daí a vontade de fazer força foi enorme, descontrolei, soltei altos ‘bramidos’. Meus amados acompanhantes me apoiaram, um de cada lado, pra que eu ficasse inclinada, meio de cócoras em cima da cama. Aconteceu muito rápido, em flashes. A equipe toda veio surgindo (médico, enfermeira, auxiliares, pediatra), tive dificuldade em passar pra mesa com o bebê pressionando pra sair. Alguns puxos e descobri o famoso ‘círculo de fogo’ – sensação de vulva queimando - urrei alto, mas em momento algum pensei ou desejei pedir medicação anestésica. Foi sugerido tentar concentrar apenas na força. Ele estava nascendo.
Uau. Completamente proprioceptiva, senti em slow motion cada milímetro daquele bebezão passando pela minha vagina, depois da cabeça, senti o giro, os ombrinhos e todo o corpinho. Foi gostoso. Ele breve chorou, não precisou ser aspirado. Eu já não sentia dor alguma, só pensava em conhecer aquele serzinho que me habitara. Logo que foi cortado o cordão umbilical (provável que ainda pulsava, não vi), o pediatra pediu pra examiná-lo junto ao pai (que também chorava emocionado), me deitei reclinada e em seguida me devolveram-no sobre o corpo.
Meu filhote chorava tanto e enquanto suturavam meu períneo (precisei de uns pontos, poucos), fui o olhando, o cheirando, o acariciando... logo se acalmou e enfim consegui sentir sua sugada quente em meu mamilo. Que emoção! Ele não ficou um minuto se quer em berçário ou observação, 100% alojamento conjunto. Minha placenta foi tracionada e saiu rápido, inteira, indolor, pedi pra vê-la e permiti que a descartassem. Também me aplicaram injeção de ocitocina na coxa pra evitar possíveis hemorragias. Devido ao líquido amniótico meconial, preferi que o Ruy e uma enfermeira dessem logo o primeiro banho de Teodoro. Enquanto isso, fui me despedir da Cris e ir pro quarto também tomar um banho - sozinha, pensativa, sorridente, poderosa!
O Téo nasceu às 2 horas e 52 minutos daquele dia, ao som de uma versão instrumental de ‘Stairway To Heaven de Led Zeppelin’, pesando belos 3,590 quilogramas e 50,5 centímetros de comprimento, perfeito, com pouco vérnix e enfeitado com uma circular de cordão no pescoço! <3 o:p="">




Agradecimentos especiais:
Ao meu grande amor Ruy, há quatro anos tornando minha vida mais divertida, crítica, ativa e positiva. Obrigada por partilhar comigo seu ‘showroom gênico’, obrigada por ser meu contraponto, meu alicerce e agora, mais que companheiro, minha nova família. Você me faz tão bem.
Ao Espaço Semente que me proporcionou germinar novas possibilidades, acordar para outra realidade, mudar de escolhas, entender o curso natural das coisas, despertar meu poder, me aproximar do divino, e conhecer pessoas boas e cheias de luz.
À dupla de parteiras urbanas Enfªs. Camila Castro e Adriana Mello, do Arte de Nascer, pelo serviço prestado com tanta doçura.
À Mariana Zago (Luz e Poesia Fotografia), fotógrafa e amiga que acompanhou e registrou sensivelmente esse processo. Incrível como suas lentes possuem o dom de eternizar momentos em lembranças que falam por si só, contemplando toda complexidade que nem a melhor memória poderia descrever. Obrigada por dar forma àquelas emoções.
À Cristiane Raquieli, que muito além de doula, foi um anjo guardião, pau pra toda obra! Marcou lindamente inúmeros momentos dessa jornada: da ‘lanterninha inspetora’ no banco de trás do carro ao ‘xixi entalado’, a cada palavra de incentivo, conselho amigo, olhar empático, mãos anestésicas, colo aconchegante, abraço acalentador. Altruísmo e amor do inicio ao fim. Não sei o que teria sido sem você.
À querida Luiza Paim, instrutora de Yoga, que se fez presente através de seus ensinamentos, conselhos e positividade. Lembrei de ti a cada respiração.
À minha família que proveu tudo o que me foi necessário: amor, zelo e respeito. Muito obrigada por me darem liberdade para bancar diferentes escolhas. E estarem sempre ali, apostos para ajudar.
Aos meus verdadeiros amigos que torceram muito mesmo de longe.
Ao Universo por conspirar, inspirar e permitir que nossas vidas se cruzassem nessa sublime experiência.



Minha eterna gratidão!

3 comentários:

Luiza Paim disse...

Lindo, lindo, lindo...

Anônimo disse...

Quanta emoção... muito lindo! Sandra Caldeira

Márcia Colombari disse...

Lindo amiga! Parabéns! Super emocionada, chorando um monte aqui! Com certeza deve ter sido a experiência mais incrível e inigualável de todas! Parabéns pela força e determinação! E que venham mais alguns!!! Rss.. Toda felicidade do mundo para os três! S2