sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Relato de Parto de Guilherme, meu ser mais precioso!

Este relato feito pela Catarine, era para ser postado ontem, que foi aniversário do Gui, mas o tempo acabou me pegando,e não aconteceu. Aqui vai. Obrigada por partilharem aqui no grupo.

Eu já havia escrito um relato, bem direto e acho que até um pouco frio, pois nele continha coisas da qual ninguém deveria passar. Mas hoje, com o Gui quase completando um ano de vida, não posso mais adiar a escrita, pensando que o meu relato possa ajudar outras mulheres que, assim como eu, buscam por um atendimento mais humano, respeitoso e esperam que do nascer de seres encantados só se tenham coisas boas!
Engravidamos sem planejar, mas era algo que o meu corpo vinha pedindo desde os meus vinte e dois anos. Quando me descobri grávida, não acreditava, era o que eu mais queria em toda minha vida. Sempre sonhei muito que amamentava.
Assim que soube, através de um exame feito por um teste de farmácia, o meu parceiro não acreditou, disse que só iria acreditar com o exame de sangue, então fiz o exame de sangue, mas a “ficha” não caía e ele só se sentiu grávido quando fizemos nosso primeiro US, com então seis semanas. Pudemos ali, ouvir os batimentos do nosso bebê, aquilo foi muito emocionante, constatar que um ser com apenas seis semanas e tão minúsculo, já possuía um coração batendo tão forte. Uma vida estava sendo formada em meu ventre.
Como moro em uma cidade do interior, na qual eu mudei tinha pouco tempo e sem nenhum familiar por perto, uma prima de São Paulo sugeriu que procurássemos uma doula. Quando ela me falou aquilo, não tinha noção do que poderia ser.
Então, após uma pesquisa feita no Google sobre o que seria doula, gostaria de saber se aqui em Araraquara existia alguma, retornei à pesquisa e achei o grupo Nascer Naturalmente. Entrei em contato com a Cris (doula) e após trocamos alguns mails, logo me convidou para participar do grupo de gestantes. Enquanto não chegava os encontros, comecei a ler muitos relatos de parto, lia e achava tudo aquilo muito lindo, partos em casa, partos hospitalares... Sempre encaminhava os relatos para o meu parceiro ler, mas ele acreditava que era tudo invenção. Felizmente, acreditou nisso até o dia em que fomos ao primeiro encontro. Foi um dia de festa, cheio de pessoas e relatos, então, naquele momento, ele constatou toda a veracidade com os próprios olhos. Nessa época, eu acompanhava com uma médica do posto, médica da família, mas eu não sentia segurança nela e logo desejei acompanhar com outro profissional. Nesse dia do grupo, conheci a Andréa, que teve um parto normal hospitalar com um médico que não faz episiotomia. Fiquei muito animada em saber que existia um médico assim na rede de médicos de convênio.
Lá fomos nós três para uma consulta de reconhecimento. Começamos a conversar com o médico, citei como o conheci, falei que buscava um parto mais natural, que era vegetariana, e surpreendentemente ele me perguntou: “Você também quer ter parto em casa?”. Eu e meu parceiro nos chocamos com a colocação dele, pois médicos não humanizados acham isso o fim do mundo, mas lá estava eu, de cara com um médico que disse sem nenhum puder, “você quer parto domiciliar”! Depois do breve choque, disse que era algo que tinha em mente, mas para ser estudado, pois requer uma situação financeira, na qual não dispúnhamos. Mas estar diante de um médico de convênio que fala com a maior tranquilidade de parto domiciliar, fez-me sentir-me nas nuvens, foi algo muito tranquilizador.
A gestação corria muito bem, nada me incomodava, exceto por enjoos causados no primeiro trimestre. Amava ver a minha barriga crescer.
As consultas seguintes sempre foram muito tranquilas, o médico nunca dizia nada que nos fizesse sair correndo de lá, na verdade sempre que comparecíamos, ele dizia que tinha atendido um parto normal lindo na maternidade, onde o pai cortava o cordão e etc. Realmente, estávamos maravilhados com esse “achado”.
Tive contrações de treinamento muito gostosas, que em momento algum me preocupou. Liguei para a doula e relatei o que sentia, a mesma me disse que eram as contrações de Braxton Hicks, assim, eu tomava um banho relaxante e tudo se acalmava.
Em meados de outubro, marcamos uma conversa com duas enfermeiras obstétricas, conversamos e esperávamos o “ok” de uma delas, pois a DPP era próxima de uma viagem que ela estava a confirmar. Enquanto isso, fomos ao nosso último encontro de gestantes no final de outubro. Convidamos o médico que nos acompanhava para comparecer e dizer o porquê era contra a episiotomia.
Quando completei 37 semanas, tive uma conversa com meu bebê durante um banho, onde disse que ele já estava pronto para nascer, que aqui fora estava tudo bem, que a mamãe e o papai o estavam aguardando. Então, na noite do dia seis de novembro, após tomar um chá de camomila e ir deitar, não me sentia confortável e passei a ir todo o instante ao banheiro, com vontade de fazer xixi. Deitei e consegui dormir, mas a vontade de fazer xixi retornou e refleti que não iria levantar novamente, pois havia acabado de adormecer. Porém, ao me virar, senti um líquido descer e pensei: “Poxa, não estou mais conseguindo segurar o xixi”. Sentei-me na cama e veio mais um pouco, levantei-me e mais um pouco, cheguei ao banheiro e mais um pouco. Tinha muita dúvida se era a bolsa, pois não era próximo a DPP (24/11/12). Sentava no vaso sanitário e cheirava pra saber se era a o líquido amniótico, pois alguns dizem que tem um cheiro parecido com o de água sanitária, mas não senti nada. Acordei o meu parceiro e disse: “Eu não sei se a bolsa rompeu”, ele logo levantou da cama e disse para irmos até a maternidade, aceitei, pois era plantão do meu médico e sabia que não iria sofrer nenhuma intervenção maluca e desnecessária. Mesmo assim, no corredor de casa eu falei: “Vamos ficar mais um pouco em casa”, mas ele disse que não, disse para irmos apenas para ver o que poderia ser; talvez fosse apenas uma incontinência urinária ou também uma bolsa rompida.
E lá vamos nós três, de moto (era o único meio de transporte que possuíamos). Ao chegar à Maternidade Gota de Leite e descer da moto, senti mais um pouco de líquido descendo, a essa altura eu já suspeitava que era a bolsa.
No atendimento inicial nem precisou ser feito toque, ali estava o sangue do tampão mucoso, fiquei feliz, mas ao mesmo tempo pensei: “E as contrações?!”. No momento em que estava sendo atendida, meu parceiro ficou na recepção me esperando, e ao acessar a internet pelo celular checou meu e-mail e assim que nos reencontramos, me disse: “A enfermeira respondeu o e-mail, e disse que está tudo certo para nos atender!”. Naquele momento, tive um misto de sensações onde não sabia o que fazer, ou iria para casa, ou continuava ali. Bem, resolvemos ficar, pois ela teria que sair de outra cidade para nos encontrar e não tínhamos nada preparado em casa, seria bem tumultuado, ou não. A nossa decisão em ficar foi pela confiança que tínhamos no meu médico, pois parecia ser humanizado e sempre relatara partos lindos. Mas também, minha internação já estava sendo providenciada, pois bolsa rota já era um “bom” motivo para ficar ali.
Subi para as acomodações de pré-parto, mas meu parceiro precisou ir para casa vestir uma calça, porque entrar de short não era permitido. Assim que cheguei ao quarto, começaram minhas contrações, estavam suaves, as dores eram suportáveis, começavam pela parte da frente e se irradiavam para a lombar. Nisso, a enfermeira apareceu para fazer um toque e constatou que já havia 2 cm de dilatação, mas eu nem imaginava que haveria um longo caminho pela frente.
Quando o meu parceiro retornou, o médico apareceu e perguntou se eu queria ser avaliada, mas disse que estava tudo bem, ele me respeitou e disse que ia para o quarto, onde seria chamado se fosse necessário. Uma técnica de enfermagem chegou e falou em depilar, mas falei que não iria fazer tricotomia, então ela me alertou: “E se precisar ir pra cesárea?”, mas na mesma hora relutei que não seria cesárea, então ela saiu.
Eu estava andando pelo quarto e a cada contração me apoiava na parede e reclinava o corpo para frente. Era tão gostoso, eu ia parir, estava muito feliz.
A enfermeira chegou ao quarto e sugeriu um banho, mas observamos que na sala da frente havia uma banheira e no mesmo instante meu parceiro perguntou sobre a opção de utilizá-la, ela disse que estava vazando, mas iria tentar encher e se ocorresse tudo bem eu poderia usá-la. Enquanto a banheira era cheia, eu perambulava pelo quarto, cheguei a utilizar um pouco o cavalinho, estava tudo suportável. Finalmente entrei na banheira e que delícia, a água ajuda muito. Ali perdi mais tampão, a enfermeira vinha vez ou outra para escutar o bebê, mas nos deixou confortável, relaxados e sozinhos na maior parte do tempo. Apagou a luz do quarto, estava indo tudo muito bem, houve momentos em que eu me contorci pela banheira, o bicho estava pegando, as contrações estava ficando mais intensas e a enfermeira sugeriu Buscopan, duas vezes, pois disse que ele ajudava bastante nas cólicas, e eu aceitei ambos, pois nas minhas leituras nunca havia ouvido falar sobre o uso deste medicamento. Por aproximadamente cinco horas, eu estava completamente fora de si. As contrações vinham e eu apertava com muita força a mão do meu companheiro. Houve um momento, após uma contração, que olhei pra ele e disse: “Acho que não vou aguentar, quero cesárea.”, mas ainda bem que ele não me deu ouvidos.
O dia já estava chegando, e as contrações estavam mais doloridas, o médico apareceu um pouco antes da troca de plantão, perguntou se eu queria fazer exame de toque e eu aceitei, porque queria saber como estava evoluindo. Quando ele falou que a dilatação estava entre sete e oito, fiquei muito feliz, pois faltava pouco para conhecer meu amor!
Voltei para a banheira, e ao observar uma de minhas contrações o médico falou que eu estava gemendo forte, e que se continuasse assim, estaria parindo dentro de umas 2 horas. Fiquei mais feliz ainda.
Mas então, chegou o horário da troca de plantão, chegou novo médico, novas enfermeiras, técnicas e mais uma porção de gente, alunos de enfermagem. O posto da enfermagem era dentro da sala que eu estava e todos entravam e saíam por aquela porta, foi ficando um saco. Ao passar o plantão, o meu médico falou para o outro: “Acompanho este casal pelo plano de saúde, e eles estão buscando um parto mais natural, deixa nascer”. Infelizmente, não foi bem assim, começou pedindo que eu saísse da banheira pra fazer exame de toque, obedeci, mas ao voltar me impediram. Pediram para eu ficar deitada na cama, não aceitei, fiquei sentada. Meu companheiro ficava fazendo massagem nas minhas costas o tempo todo. Chegou um café da manhã tão pobre, que nem deu vontade de comer, era chá mate com bolacha maisena.
Daqui em diante, eu não lembro com exatidão tudo que me ocorreu.
O médico nos deixou ali um tempo, sentou numa cadeira na nossa frente e adormeceu (poderia ter adormecido pra sempre), também havia umas enfermeiras insuportáveis, que estavam mais atrapalhando do que ajudando. Após um tempo, o médico, que até então estava sossegado e quieto, falou para uma das meninas: “Pega a ocitocina”, mas meu companheiro, na mesma hora, relutou e disse “NÃO”. O médico parou, olhou e então disse: “Você pode escolher, ficar na bola ou ocitocina.”. Claro que aceitei utilizar a bola. Enquanto as contrações não apareciam, eu ficava sentada, mas quando surgiam eu tinha um pouco de vontade de fazer força, mas acho que não era o momento certo.
Nove horas, nove de dilatação. Incomodada com o entra e sai da sala, pegamos um biombo que estava do lado da cama e coloquei na minha frente. Uma professora da faculdade local escutava sempre o bebê, ela e mais duas estudantes estavam sempre ali do meu lado, até que me deram um suporte legal e diziam que eu e meu bebê estavamos indo bem, me deixou bem tranquila.
Em um novo exame de toque e dilatação total, a enfermeira nos informou que já conseguia ver o cabelo, e eu fiquei mais ansiosa ainda para ver meu bebezinho. Após a constatação da total dilatação, começou a chatice de parir em uma maternidade não humanizada, concorrer com a pressa. É um saco, pois eles precisam fazer a “fila andar”.
Pediram para que eu fosse até a cama, pois iriam fazer um cardiotoco. Fiquei de quatro, pois não queria deitar. As estudantes colocaram a fita, mas igual o nariz delas, pois estava errado, o médico precisou intervir e arrumar. Pediu para me deitar, falei sentia dor, mas ele insistiu dizendo que seria rápido. Feito o cardiotoco, foi constatado que tudo estava bem com o bebê e nos deixaram em paz por mais algum tempo.
Começaram a conversar comigo, questionando minha recusa pela ocitocina, expliquei tudo que tinha lido no parto ativo, que não era legal para o bebê. De repente, surge uma “doula” do hospital, não a minha doula. Ela se apresentou como fisioterapeuta e doula, e chegou fazendo massagem, falando que eu estava indo muito bem. Começou a falar que a ocitocina iria ajudar o nascimento, pois eu já estava com dilatação total, mas sem força para o expulsivo, e que não iria acontecer nada com o bebê. Eu e meu parceiro conversamos, ele disse que talvez a ocitocina pudesse ajudar, já que a doula estava falando isso. Infelizmente aceitei e me arrependo até hoje disso.
Era aproximadamente onze horas e na meia hora seguinte as contrações vieram cada vez mais fortes e compassadas, mas percebi que a aplicação da ocitocina não causou mais dor, como eu já havia lido.
Levaram-me para a sala de parto, onde precisei subir em uma maca reclinável e de pernas elevadas. Vinham as contrações e o médico dizia para eu segurar nos ferros laterais e fazer força, uma força comprida. Em uma dessas contrações, todos estavam falando: “Faz força, faz força”, mas a contração já havia passado e eu estava quase chorando, então meu companheiro gritou com a equipe: “Não é para fazer força somente na contração? Então, ela não está tendo contração.” Todos pararam e ficaram quietos. Imagine a cena, uma sala com cerca de dez pessoas. Uma técnica de enfermagem me contou o episódio, pois eu não lembro. Depois que aceitei a ocitocina, embarquei de vez na partolândia e daqui em diante o relato se apresenta por flashes que me vem à cabeça.
Lembro-me de um momento em que uma enfermeira trouxe seus braços para cima da minha barriga e começou a fazer força e empurrá-la de modo brando, mas após ela começar, meu parceiro disse que o médico pediu “uma ajudinha extra”, e foi aí que ela começou a fazer a Manobra de Kristeler, foi um incomodo, mas eu não sabia que aquilo não era aceitável, pois não havia lido em lugar algum. Infelizmente, tive que aceitar. A cabeça do bebê aparecia e voltava, meu parceiro me falava: “Quando você faz força ela sai, mas daí volta um pouco, tá quase!” Ele me dava apoio, foi muito bom tê-lo ali do meu lado, pois ele foi meu protetor de episio, sem ele ali, teria ganhado um belo corte. Pois esse médico disse que no “meu caso” seria necessário.
Infelizmente o médico ficou com o dedo no períneo e pedia para fazer força. O resultado da manobra junto com o dedo foi uma laceração.
Meu bebê nasceu ao meio dia e quatro, pesando 3,600 kg e medindo 50 cm, muito bem, chorando muito, pedi para não cortarem tão já o cordão, mas não me respeitaram. Meu esposo cortou o cordão a pedido meu. Meu bebê foi no meu colo e ficou quietinho, com aquela carinha de bravo, aquele cheiro de vérnix e todo melecadinho, que delícia, a melhor sensação do mundo. Eu não parava de cheirar, era muito bom.
Pegaram ele e fizeram todas as intervenções, contra a minha vontade: aspiração, aplicação do colírio e das vacinas, mas fizeram tudo escondido no berçário, pois sabiam que não queríamos.  Ficamos sabendo através de um pediatra que trabalha com meu parceiro, não fomos informados na maternidade.
Fomos despreparados e apressados para a maternidade, esquecendo-se de levar a bolsa do bebê. Meu parceiro precisou ir para a casa pegar. Consequentemente, ele não mamou na primeira hora, porque, segundo as regras do hospital, o bebê não poderia sair do berçário sem roupa.
Essa é a nossa história. Não foi o nascimento que desejei, mas foi o melhor que buscamos naquele momento para o nosso bebê.
Agradeço ao meu parceiro, que ficou comigo o tempo todo, me apoiou sempre na busca por um parto normal e mais natural possível, sem ele o sofrimento dentro da instituição hospitalar teria sido maior.

  Catarine Parra

2 comentários:

Luiza Paim disse...

Linda história... linda caminhada, tenham muito orgulho dela! Guilherme chegou bem ao mundo e com certeza verá o nascimento como algo natural e belo!

Catarine Parra disse...

Obrigada Luiza!